terça-feira, 15 de dezembro de 2009

15 de dezembro de 2009 (em retrospecto I- das memórias e vontades)

Arrumei minha mala, de volta pra casa. E não posso mensurar a ansiedade que tenho para chegar. Me aninhar no ventre de casa, no meu quarto aconchegante, com teto virado pro céu. E devanear, esconder na escrivaninha todos os meus versos contidos na ânsia de tentar ser. Lá onde o celular tira férias, e se desprende da bateria, e onde eu tiro férias do mundo daqui de fora.
Lá, onde o mundo chega até mim, apenas como ruídos, e as verdades se mascaram sob o som do ventilador de teto incessante. Lá, onde a nostalgia impera, longe dos lápis de olho borrados, e cabelos penteados. Lá onde o amor, ressoa em modinhas de violão, reticentes e impiedosas, amortecendo as tristezas, e a solidão. Lá, onde o silencio é matéria prima de criação, e o escuro da noite, se transforma em sonho. Nem sempre bons, e aconchegantes. Ás vezes as noites são vazias, e percorrem rapidamente as horas, tornando-se dia, mais cedo.
E, logo será hora, de proteger-me na redoma inventada, e programada para conter meu sopro de liberdade. Já tenho saudade das limitações de impacto, causada pelas paredes de cimento frio.
Lá, onde minhas vontades são pecados, e minhas atitudes deploráveis. Lá, onde os pesadelos tem pena de mim, e me deixam solitária às noites. Lá, onde as lembranças são companheiras da existencia injustificada.
Saudades de casa, meu exílio particular.

sábado, 12 de dezembro de 2009

11 de dezembro (em retrospecto I - da partida)

Acordei em 2009, como quem decide partir para longe. Levantei cedo, abri as janelas, e deixei o sol entrar vagarosamente, descobrindo os cantos, e clareando o que estava na superfície exposta.
Abri as gavetas, com cheiro de mofo, e as enchi de naftalinas.
E eu parti de fato, e na minha mala, cheia de ventos e sonhos, o relógio também marcava os instantes em contagem regressiva. Quem quer que acredite que o tempo corre para a frente, adicionando horas. Isso é ilusão de relógio! O tempo corre para o fim, diminuindo os instantes seguintes, a cada volta completada sem esforços...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Niilismo

Caminhamos para a morte, a cada instante que se passa,
a cada consentimento não pensado,
a cada dia que acordamos bem dispostos, ou mesmo não dispostos (há também os que não acordam).
E é assustador, como somos 'passageiros', como nossa vidinha mísera se resume a um instante do presente, já que o dali a pouco não conhecemos.
A morte nos espreita, nos acaricia, nos molda,
Brinca conosco, como um predador com sua comida.E ficamos doentes, e buscamos cura, melhora, tentamos mascarar a verdade com fórmulas manipuladas, e algumas mentiras encobertas.
A vida, vai nos dando motivos, enredos, corda,
e nós, ávidos por futurinhos inventados e programados, laçamos a armadilha,
e nos enveredamos pelo caminho sem volta.
E o mundo, se desgoverna,
Gira, e nos manifesta gloriosa decaída, não por si, mas por ação conjunta e alienada de um que sapiens e ignora.
E no enlace mau, na arrancada triunfal da miséria sobre a terra, percebemos a vaidade instalada, o egoísmo, o sentimento aguçado de luta pela sobrevivencia.
Cada passo, guia para o abismo.
Há os que vão mais adiante, mas o fundo é destino de todos.
E como diria o sábio, em seu escrito,
'são mais felizes os que já morreram, dos que ainda vivem, mais felizes do que ambos é o que ainda não nasceu...' (eclesiastes 4)

Conto narrador-personagem na terceira pessoa [3]



E sucedeu uma saudade nova, dele, e que ela não conseguia controlar.
E era tão forte, e tão confortável, que ela se deixou acompanhar, peito aberto, e braços desejosos.
A meu bonitinho...

sábado, 5 de dezembro de 2009

A um anônimo


Eu estava passando, e vi a multidão aglomerada: Tinha alguém caído no chão.

Um arrepio percorreu a espinha, e eu, quase que instantaneamente, caminhei para o aglomerado de pessoas. A respiração estava pesada, o coração batia rápido, e a mente implorava que não fosse ninguém conhecido.

Senti um alívio, quando vi o rosto anônimo desacordado. Um rapaz de mais ou menos 22 anos, alto, bem vestido, e bonito. Meio loiro, sem barba, com uma blusa azul céu. Na testa dele, havia um enorme curativo.

Haviam muitas pessoas conjecturando, e teve até os que disseram que ele havia sido atropelado por um ônibus.

É, agora, lamento muito. Eu não sei o que aconteceu com o rapaz, se a ambulância chegou, pois não demorei nem 10 segundos na "conferida". A questão é que senti-me aliviada ao ver que a pessoa lá estendida não era ninguém que eu amasse. Isso é cruel, um egoísmo sem tamanho. E eu até paro para pensar no que eu poderia ter feito. Nada. Apenas ter sentido pena do coitado.

Aquele tanto de pessoas lá, em volta dele, como se fossem urubus esperando para se deliciar com a morte, sairiam dali dizendo: "morreu um rapaz hoje lá no centro...".Eu, passei, olhei e ignorei.

Agora dói. Não deveria ser assim, nós não deveríamos só nos importar com parentes e amigos. Somos um todo social, em que os benefícios e malefícios são compartilhados.

O rapaz ficou lá, desacordado. Ele viveu com certeza. Não tinha sangue no chão, e definitivamente, não parecia ter sido atropelado. Mas agora ele ronda minha mente, me acusando de Omissão.

E digo-lhe: "eu não poderia ter feito nada."

E ele chama-me de Egoísta.


PS: Dizem que o cuidado parental é uma característica que propiciou a evolução da nossa espécie. Eu acredito também...Mas acabou que essa caracteristica tornou-se tão acentuada, que estamos perdendo a compaixão. Quantos aqui colocariam o cara no carro, e o levariam para o hospital, sem conhecê-lo, sem saber se ele merecia, e até, pagariam os exames? Não muitos... A gente nunca se arrisca, não é? Preferimos alugar o pensmento, e sair pela tangente...

Triste realidade à qual, sou inclusa...