sábado, 22 de maio de 2010

Poema para solteiros


Novo canto de apostasia triste: rima que parece encanto,
fala que lembra oração.
Noites e dias confusos imersos na solidão pós-sonho,
realidade amargurada, mãos que se perdem em bolsos,
risadas que se tornam vãs.
Cotidiano embrevecido,
sons que lembram derrotas,
decepções que se tornam provas de crimes perversos contra o ego.
Emaranhado de saudades, lembranças pálidas pintadas em papel toalha.
Momentos que remotam a momentos,
e a tantas vontades remanescentes...
Dor tamanha, sem fundo,
coração que atraca desesperado em ansiedades e desesperos.
Solidão tamanha, espera afundada em vazio.
Tanto medo, tanto medo,
tantas expectativas mortas com palavras pontiagudas.
Proteção retirada, portas destrancadas, vã guarda!
Mas, mãos leves, sem âncoras. Olhares libertos, despreparados!
Poesia requentada, retirada de bolsos, escritas em jornais, guardanapos, cantos de caderno,
a giz, a lapis, a sangue!
Mas, poesia, dessas libertinas, sem doçuras de romance.
Livre de suavidade, e cheia de pontas. Marcada como cicatriz de ferida fechada.
Coração grande, livre, cheio de um vazio espaçoso.
Convalescendo...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Sonetando 2



Os anjos se encarregam dos encontros,
esbarram no horizonte as almas que não se procuraram,
espelham em pedaços de papel os reencontros,
e desviam dos olhares céticos dos esclarecidos, os versos que desejaram.


Não é natural que o destino se enlace,
fita a fita, laço a laço,
na armadilha terrena que é o amor de impasse,
amuado, quieto, mudo, esparso.


Mas, de quietude é feito os céus,
graça azul de calmaria depressiva,
e de anjos instigados em solidéus.


E se empenham em tarefas incompassivas,
de desterrar corações quietos, dando-lhes amor,
não pedido, não desejado, invasor impertinente, assustador!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Abraço

Sabe mãinha, aquele dia que eu te abracei, e disse que era saudade?
Nem era tanto, era meu coração que doía, e eu não conseguia admitir.
Não tinha coragem de dizer, como é doloroso estar longe, e como amadurecer sozinha é difícil...
Como os simples casos de amor, tornaram-se balaios-de-gato em meu coração, e todos os meus sonhos mudaram.
Queria dizer, que não sou mais sua garotinha,
Que agora, meus medos evoluíram, e meu futuro não mais se resume ao próximo aniversário.
Não tenho mais vontade de cantar, e minha ingenuidade perde-se entre os dias que transcorrem obscuros.
A vida vem se mostrando cruel como nunca imaginei. O tempo canibal leva pra longe as esperanças, e cada dia passa sufocando as fantasias. Sim, cada noite que consigo dormir é um alívio.
Talvez, por colocar a cabeça no travesseiro, e ver perdurar somente a certeza de que tudo vai piorar. Que eu vou envelhecer, e ter que ralar muito ainda. Lembrar que logo adiante, a vida vai me cobrar todos os segundos oferecidos.
Não sei negar o orgulho,e sinto-me perdida, como o Crusoé. Ilhada, em mim mesma, fechada a todos que tentem se aproximar. Sozinha mesmo.
Não queria te contar, como os fins de semana são torturantes. Como a viagem de volta pra casa é torturante. Como sinto-me tão desconfortável sendo eu, que me dilacero todos os dias, pra ver se sobra espaço.
Que ás vezes, a liberdade vem me beijar, mas rejeito, por medo. Por culpa, ou por falta de certeza.
Eu chorei aquele dia, mas disse que foi a saudade. Estava era prestes a deixar o coração parar, de tanta tristeza. Essa, que me toma todos os dias, e se veste de mim, levando minha cara para todos os lugares que preciso.
Abracei-te por um segundo, desejando voltar para o teu ventre, e ser só pulsar, nada mais. Não ter que passar por tantos problemas, ter que fazer tantas escolhas. Ter que ver as pessoas que amo, magoadas por causa de atitudes mesquinhas e irresponsáveis.
Eu não te disse nada,e você nem questionou. Engoliu a desculpa esfarrapada da saudade.

sábado, 1 de maio de 2010

Persona non grata


É noite escura, uma Sombra* persegue-me, com o formato do corpo que eu não quis.
Sem asas, mas a uma velocidade assustadora,
milimetro por milimetro, ao encalce cego,
farejando meu cheiro, e ancorando-se aos meus pés.
De que adianta correr,
se de mim, não me escondo,
e o rastro meio escondido por entre as folhas secas, parece ser tão bom indicativo de passagem.
Poderia correr eternamente, e não olhar pra traz. E essa fuga constante, aliada aos relógios , nunca me levaria ao mais longe que pudesse do que me assusta.
Monstro de escuridão confusa. Cheio de fome de corpo,
desejando espaço para ser.
Espera os sonhos da noite, e cresce infinitamente, até tocar as pardes do corpo, por dentro.
E corro, e tento arrancar com as unhas, cravando-as no pescoço, para que se dissipe, para que meus sonhos, sejam indolores.
Ancora-se à realidade áspera, penumbrosa. Espreita-me de perto, quase beijando os lábios reais cor de rosa-clara.
Talvez, me encene do silencioso corpo mal iluminado, quase banhado de matéria, mas respingado de pedras e pó.
Eu sou o obstáculo, entre a sombra e a luz!
Preciso tornar-me transparente.


* Temática do Jung.


PS: Obrigada Allyne Araújo, do blog ' Êxtase e rock and roll ', pelo selo.



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