segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Despedida(S) - II


Não sei até onde as despedidas são necessárias. Às vezes, há uma necessidade inexplicável por despedir-nos. Talvez, nesses momentos de angústia, inconscientemente tenhamos certeza de que dali a diante, nos tornaremos um novo ser.
Fechamos os olhos, e os abrimos possuindo longas asas. Nos livramos de um exoesqueleto enrigecido, e encaramos o mundo com a musculatura mole e desprotegida.
Despedimo-nos de nós mesmos, e das lágrimas que passam a habitar o dia anterior, assim que amanhece. E cada dia, somos os que dormiram, e sonharam. A cada novo instante, somos os que viram, e os que pensaram. Os que aprenderam, e os que esqueceram.
Seremos sempre um pouco mais do que ontem, do que antes, e logo, muito mais do que agora.
Gostaria de saber por que despedidas são tão necessárias. Como a cada instante que a vida se mostra repentinamente mudada. Quando o destino apresenta uma curva, e o lá fora parece tão perto.
Os caminhos mostram-se em constante construção, e temos consciência de que não sabemos seu rumo, e seu fim. Sabemos apenas que nossos pés anseiam por percorrê-los.
E o horizonte que nos vê de frente, a cada dia, nos vê como outros.
Despedimo-nos dos outros, a cada boa noite, e para sempre. A cada novo dia, mais horas adicionadas à vida. Seremos sempre os que experimentaram, ou os que temeram; os que arriscaram, ou os que retrocederam.
Por isso, aqui me despeço.
Não como quem vai para longe, ou como quem vai se ausentar por longo tempo (mesmo que isso me pareça uma metáfora apropriada). Despeço-me como quem deixará de existir.
Amanhã, já não serei o que sou hoje, mas uma outra coisa ainda sem nome, e que talvez, nunca o terá.
E despeço-me, pois dali a um instante, já vós, meus leitores, serão outros, tão diferentes quanto foram ontem, ou antes, ou o são agora.
E enfim, as velhas coisas que se acostumem à antiga cara, de nova dona!

"E assim, chegar e partir..." (M. Nascimento / F. Brant)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Saudades IV

"Hoje eu acordei com medo mas não chorei nem reclamei abrigo, do escuro eu via um infinito sem presente, passado ou futuro." (Cazuza/Frejat)

Agora, me falta tanto, que meu interior respinga o vazio que me acomete. Vejo tanto vazio, e tanto arrependimento. Tanta solidão que me faz rachar.
Falta tanto carinho, tanto amor, tanto consolo...
Minhas paredes se agigantam, meus olhos escurecem, e sou eu que recuo, diminuindo dentro do corpo que agiganta.
E agora, sou muito mais do que eu tenho para preencher. E escorro pelas pernas, e me vejo de fora, de longe, perdida.
Me sobra tanta falta, tanto espaço. Sobra um corpo frio sem abraço. Um olhar perdido, sem porto, sem dono, sem motivos.
Sobra o choro contido, e a vontade imensa de correr para um abraço apertado que me preenchesse por fora, e um olhar compassivo, que me preenchesse por dentro.
E, emudeço em respeito ao silêncio que me acompanha.
Talvez, o arrumar as malas e partir, tenha sido uma bobagem.


PS:

Não parece sensato fazer poesia quando se está triste. Estes meus últimos posts tem me parecido tão desagradáveis, mas, eu não sei o que escrever, senão o que ando sentindo.
Talvez se eu fosse mais imparcial, e poetizasse pare os outros, isso tudo aqui seria bem mais agradável.


"Mas quem é que nunca se sentiu assim, procurando um caminho pra seguir, uma direção - respostas..."



domingo, 15 de agosto de 2010

Ephemeral Beauty


A flor que murcha, não perde o encanto, pois ainda é flor.
Mais linda ainda, pois a tendência da morte que se aproxima, torna-a tão sublime,
como as almas que voam para o paraíso.
Sua beleza, se confunde com a vitalidade das flores que brotam coloridas.
Amo a flor murcha, pois se despede,
e se despedir é um ato de coragem.
Amo a flor murcha, porque me mostra que cá, eu também murcho aos poucos.
Todos nós.


Imagem retirada do Getty Images

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Um verso sem começo, para um fim idealizado

No espaço em branco, o sussurro das palavras reverbera.

E chega a confundir-se com a realidade externa,

A minha realidade intrínseca, que veementemente espera

Passar a inquietude dos dias eternos.




PS: Prometo que essa fase melancólica vai acabar. rsrsrs...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Para ela, e prara mim...

A P.C.

Não existe moça triste, triste moça,
Tua beleza te faz solene,
Mas não existe beleza triste,
Só a triste beleza da tua solidão.
Os teus lábios calam os cânticos,
E a áurea preocupada vasculha no presente uma indicação.
O coração sempre alheio às certezas, impera vagaroso a condescendência de vida.
Tua triste beleza moça, denota solidão,
Solidão de moça triste: de poemas solitários e juventude rouca.
Mas que solidão é mais triste que a da triste moça?
De existência solitária e reclusão da alma?
Tuas algemas rebrilham como pulseiras em meio ao caos.
Brilho oco, de metal polido, refletindo as luzes incidentes das estrelas que mimam teu teto alvo.
Solidão é triste, moça, a tua!
Tua beleza triste, tuas lágrimas solitárias, tua juventude escorrendo como tempo em ampulhetas mágicas
Não existe moça triste, mas, em ti, toda tristeza se pinta com a beleza dos poemas antigos.

domingo, 1 de agosto de 2010

Envelhescência


Da pele, brotam sulcos fundos, recheados com todas as angústias de uma vida.
(as angústias marcam mais...as felicidades são aprisionadas em retratos...)
A vida, cansada, suspira, por tão longos anos que se ajuntam.
E os anos, rebrilham nas pupilas amarrotadas, vertendo como brilho de estrelas raras, a sabedoria adquirida.
( a sabedoria, que segundo o Márquez, só vem quando não mais é necessária)
A sabedoria, faz-se inata, brota da garganta quase muda, enaltecendo a ser que agora é.
Ser agora, é algo tão comum, que nem se percebe a essência evaporando pelos poros, indo compor os ventos, e alimentar as chamas.
Aos poucos, os ventos levam tudo, e a alma pode se desprender da matéria envelhecida.
Já se vai a vida, como um pó soprado para longe, disperso. Já se vão os amores, e até mesmo as dores.
Os velhos temem apenas, o sono!


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Não transpareço a idade que tenho,
e ainda assim, me resta dizer,
aos que me chamam de criança,
que deveria ter muito mais de anos, do que a minha idade.
Minha velhice, espanta a curiosidade.
Talvez, seja mais precoce do que imagino.
Minhas rugas enfraquecem as vistas, e me enchem de uma poesia quase unicamente de túnel.
Aos netos, que não verei, pois não existirão (ao menos agora, que meu presente caminha para o futuro, com perspectivas de solidão),
deixo o legado desse gene precoce,
de degenerado poeta descompassado.
É, só tenho estes olhos pelo avesso,
com que vejo a vida em tons de sépia, e pastéis: ótica pós-efeito, a ilusória.
Triste? Talvez.
Cansada das outras vidas que não tive, mas que vivi em sonho.
Eu acho.

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Imagem: Getty images
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