segunda-feira, 19 de julho de 2010

Miedo

Às vezes, o medo remoto como o que emergia das crenças ingênuas, vem assombrar um presente vacilante com suas sombras amedrontadoras. O ser, que encoberto até o rosto tentava não olhar, apercebe-se instigado, o coração acelerado temendo os mostros imaginários que adormeceram embaixo da cama.
Mas não em pouco tempo, vê-se rodeado por silêncio, mudo, esparso, imerso numa escuridão confortável, das que embalam os sonhos. Os obstáculos é que criam vida. Emergem do espelho como expressões ensaiadas, tantas vezes desfiladas pelas ruas como máscaras.
O desconforto é visível. Pudera, o coração marcado profundamente, convalesce, e funciona com as dores projetadas em carne-viva. Dilacerada, a poética recompõe-se aos poucos emitindo versos fracos, elevados com uma brandura quase infantil.
Mas é medo que invade. Que vem com sons de pedra, afundando perigosamente, levando junto uma consciência desvalida. O peito, como carapaça afiada, se protege como pode, já que de dentro,  o coração é quem sofre as dores lacinantes das perfurações à pouco ocorridas.
Só, que o tempo não é tão previsível como as ilusões de relógio. Não escorre milimetricamente como cantam os ponteiros, no seu tic-tac infindo. Parece eterno, e inversamente proporcional a qualquer tipo, mesmo que inconsciente, de vontade.
E nos faz perder nas histórias que se contam, e nas situações que nos encalçam, passo a passo. E o coração,ainda dolorido, sonha as cicatrizes das chagas ainda abertas. Sente-se embalsamado, por qualquer melodia que venha acalentar o desespero, e permanece irrequieto, na vontade de sentir.
Teimosia errante, vontade inconseqüente de sentir, mais uma vez, a intensidade prolongada do poema que nasce rapidamente. Emerge dos escombros do que assemelhava-se a castelo. Mas como árvore franzina, plântula enraizada, emitindo folhas verdes, dotadas de cheiro de alento.
Não adianta, reforçar as defesas, bloquear-se com desvios. Torna-se insuportável a ânsia convulsa de arrebentar as correntes, desfrear a língua, e emitir-se como vento. Pintar de leve as paredes, encher-se de claridade colorida, abrir os olhos mesmo que por um instante, esquecer-se que os monstros não existem fora das pupilas.

3 comentários:

Evelyn Ceinwyn . disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Evelyn Ceinwyn . disse...

Embora sejam geralmente esses monstros que não existam fora das pupilas, os que causem mais medo, mais temor e sejam os mais reais, o que não anula a possibilidade de esquecermos deles um pouco.

Me identifiquei muito com o texto Nine.

Um Beijo!

Sylvia Araujo disse...

Esse teu texto está primoroso, Nine! Ritmado, mantem o suspense e desenboca bonito num ensolarar que só que não quer é que não vê.

Excelente!

Beijoca, flor

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