sábado, 17 de outubro de 2009

o Sonho, e a Culpa


No chão, o papelão forrado,
e a criança sonolenta, desaba.
Sem pão, o estômago ronca,
fazendo trilha sonora para o contraste que se pinta na realidade.

Em baixo da marquise, o menino vê o céu ser barrado pelo concreto.
Percebe apenas, os carros que passam apressados, e barulhentos,
escondendo o barulho do seu estômago...

Não teme a escuridão!
Seus monstros aterrorizantes são a fome e a miséria,
tem a angústia
do medo da bala perdida, da violência...
Há muito tempo, não espera o Papai Noel, ou o coelho da Páscoa,
Esperava sim, um olhar de compaixão,
uma mão que afagasse seu desespero,
e o ajudasse...
Tinha receios que isso viesse a acontecer um dia,
e pedia em oração a Deus, que sobrevivesse àquela noite...

Sua infância esvaía, soterrada pelo egoísmo alheio,
pelo concreto armado, que cimentava os olhares, e opiniões.
E tinha fome, muita fome de carinho, de futuro!

Mas, a sociedade só o oferecia um prato de sobras,
só era visto de relance, pelas pessoas que passavam apressadas.
Podia até gritar que não seria ouvido.
Era sempre a mesma resposta:
-Não tenho dinheiro!
Não era dinheiro que ele queria, era vida, era oportunidade!

No colchão de papelão,
o garoto sonolento fazia seus votos, e preces.
Fechou os olhos, e por alguns instantes, seu semblante lembrava sua infância.
Sim, era uma criança que dormia serenamente, e sonhava.
Sonhos de criança, com balas, fadas e carinho...

Havia esperança enquanto sonhasse!



PS:

Nem posso imaginar quantas vezes, passei na rua, e não percebi uma criança indefesa soterrada pelo meu egoísmo...Inúmeras vezes, dei a fatídica resposta, do "não tenho grana.", e não pude ver o desespero nos olhos carcomidos pela miséria.
A pobreza, é minha culpa, que aspiro galgar uma posição na sociedade, enquanto muitos outros, são expulsos do direito de tentar...
O barulho dos carros, pode calar o som altíssimo dos milhares de estômagos que roncam de fome, mas não podem apagar a existencia do menino esfomeado.
Evitamos esquinas, com a desculpa de se esconder da violência, não passamos por ruas, evitamos sinais...Evitamos lembrar que existem pessoas abaixo da linha da pobreza...
Enquanto a consciência não toma conhecimento da miséria, podemos viver com a barriga cheia de comodismo, estáticos, enquanto devoramos as oportunidades cozidas, dos garotos que nascem sem sorte...
Podemos andar de carro, a vidros fechados, presos num mundo hostil, enquanto cá de fora, alguém só implora um olhar...
Sou culpada pela pobreza, e assino a sentença de morte do menino, toda vez que passo, e finjo não enxergar!

5 comentários:

Marcelo Mayer disse...

"troque seu cachorro por uma criança pobre"

campanha que deveria ser feita!

***MissUniversoPróprio*** disse...

Nossa... emocionante.

Texto maravilhoso para uma triste realidade.

Querida, obrigada pela visita e carinho lá blog. Desculpa a demora em vir aqui agradecer e fique à vontade para visitar sempre que quiser.

Gostei daqui, estou seguindo! ;) =**

***MissUniversoPróprio*** disse...

Pois é...recomeçar não é fácil...na verdade acho que é isso que mais pesa quando acabamos um relacionamento...o fato de termos que começar tudo novamente...

:/

Beijos e boa semana pra ti!

***MissUniversoPróprio*** disse...

O tempo é nosso melhor amigo, querida. Sempre ele. ;)

Um beijo e obrigada pelo carinho. ;)

=*

Fran disse...

Muito obrigada pela visita e volte sempre *-*
Não consegui comentar no post de cima, mas ameei sua iniciativa, parabéns!

Beeijos!

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